sexta-feira, 29 de maio de 2009

Não Pode Ser Verdade



Quando cheguei pela primeira vez como bolsista na biblioteca da universidade de brasília, fui remanejado pela diretora para a equipe de recolocação. Ela pediu a mim que procurasse por um senhor que seria meu chefe dali em diante...
-O nome dele é Paulo: um senhor de meia idade e com sinais de calvice, procure-o pelo apelido ou ninguém saberá te informar...
-Não foi difícil encontrá-lo. shampoo! apelido estranho; deve ser único...
O senhor Paulo, que eu me recusava a chamar de shampoo, foi muito receptivo comigo: passou todas as informações de que necessitava, aconselhou-me, mas sempre me deixando a vontade ...
No vai e vem daquelas quinze horas semanais quase ninguém falava comigo; os que o faziam não lembravam do meu nome: valter, valdo, vanio e até vagno, exceto o senhor Paulo, apesar de não precisar falar muito a mim, sempre se lembrava do meu nome ...
-Tudo bem Wagner?!
-Beleza sr Paulo!
Essa cena se repetiu por quase dois meses. O senhor Paulo era um homem muito sério, mas sabe aquela seriedade calma?, ou melhor: serena, não!, despreocupada, talvez triste... é isso mesmo: era uma seriedade triste. Não bradava com ninguém, quase não se ouvia a voz dele naqueles corredores... antes disso eu não seria capaz de deduzir, mas hoje imagino: o senhor Paulo era triste; do tipo que parece presentir algo ruím...
-Tudo bem Wagner?
-Beleza sr Paulo!
Peguei o elevador na segunda feira, estava com um carrinho cheio de livros e procurava a sala de catalogação... encontrei o senhor Paulo que com uma resposta simples resolveu meu problema...
-No térreo Wagner!
Confesso que quase não observei na expressão dele naquele momento... infelizmente... deveria ter conversado mais com ele...
Na terça feira quando cheguei na biblioteca fui direto à copa tomar um cafezinho que tem por lá e onde o senhor Paulo gostava de ficar... antes que eu adentrasse tive de passar pelo mural de recados que fica antes da porta... um aviso destes é sempre muito apelativo e carregado de tensão: nota de falecimento...
Tive de procurar pra três pessoas antes de acreditar... não importa o motivo, o fato trás muito de inacreditabilidade. mas ontem eu estive com ele, e, parecia tão bem fisicamente... era muito novo ainda. não importa o motivo. infarto?!? aqueles corredores estarão sempre impregnados pela lembrança dele.mas ontem ele estava comigo!
O senhor Paulo faleceu mesmo?
-Faleceu.
-Faleceu?!
Uma amiga que ouviu isso de mim resumiu de maneira bem adequada:
-È! isso só prova o quanto nós somos nada...
Não gosto de acreditar em coisas metafísicas, é quase sempre coincidência pra mim, mas depois do senhor Paulo, confesso que fiquei pensando em algumas intrigâncias inquietantes:
poderia o ser humano presentir o que está por vir? a tristeza presente naqueles olhos estiveram sempre morando alí? nós somos nada mesmo...
-Faleceu.
-Faleceu, mas como pode isso!????? estive com ele ontem...

Brasília, 29 de maio de 2009


Wagner Silva

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Imprevisibilidade Semântica dos Devaneios Filosóficos Modernos.



sobre a obra "os sete saberes necessários à educação do futuro" de Edgar Morin.





O filósofo francês Edgar Morin é um dos mais bem conceituados pensadores da educação na contemporaneidade: seus escritos nesta área lhe renderam notado prestígio no meio acadêmico mundial. Em 1999 foi convidado pela UNESCO a elaborar um painel reflexivo sobre o panorama atual e os ideais caros a ‘sociedade planetária’ no que concerne às praticas pedagógicas futuristas.
A obra em questão é um apelo, quase quimerial, como tantas e tantas outras propostas apresentadas ao longo dos séculos por filósofos e educadores, inseridos em um determinado contexto socio-econômico-cultural, necessitados por contribuir de alguma maneira na mudança de paradigma na educação de seu tempo. Leitura simples e de fácil assimilação, as sete explanações – ensinar a identidade terrena, principalmente - brotam da mente de Morin com um gritante ar de obvialidade, apesar de sua intelectualidade consciente. Concordar é preciso; avante!, é otimista, prazeroso aos sentidos céticos dos educadores engajados, universalmente estimulante, e por isso mesmo : “u-topos”: sem lugar; utópico. A novidade é que desta vez o discurso empregado adquiri contornos inéditos na história da humanidade; o principal deles é a integração planetária como atriz de influência direta no comportamento social ao redor do mundo – capitalistamente falando “ o tal do aldeiamento global” .
Pensar em um modelo de educação com diretrizes uniformes para todas as milhares de correntes culturais desta ínfima poeira cósmica chamada por muitos de terra, é convergir demasiadamente com as fantasias dos desejos de aurora; com as novidades saborosas ao paladar visionário, e isso já é provado por a + b: -ah! Aderir ao protocolo de kyoto é bonitinho, mas vai desacelerar minha economia, faz o seguinte: eu pago àquele país lá da América do Sul, do qual me esquecí o nome, para que o mesmo sequestre um pouco de carbono por mim. Ponto final. Não se pode interagir bilateralmente sobre sustentabilidade com a mola propulssora dos picos de desenvolvimento no mundo moderno: a OMC e seus tentáculos; do mesmo modo que no país mais populoso do planeta não se pode disseminar os frutos das ciências sociais, não obstante a incoerência.
Capitalismos, socialismos, comunismos; ateísmo, induismo, islamismo, cristianismo. Sim é urgente a necessidade de saberes imprescindíveis à educação do futuro, no entanto direcionados a cada uma dessas realidades, pois, embora saiba-se da maior demonstração Obamiana de democracia; e isso seja muito simpático, a aldeia global, de Marshall McLuhan, não garante, ou mesmo permite, um certo auxílio ao resto do mundo, no que se refere ao protecionismo alfandegário e outras imposições praticadas por quem podem se dar a estes luxos, e o Francês tem noção disso.
È preciso ser otimista sempre, em contra partida, faz-se necessário adequar o pensamento à realidade, que, hoje em dia, comunga muito sempre com as constantes pessimistas.
Aos pedagogos displicentes é um livro de cabeceira; ideal para desencadear uma tomada de consciência, no sentido de dotar-se de um maior campo de visão em sua principal área de interferência: a educação em todas as suas complexidades. Mas se a companhia noturna estiver lotada com as obras de Vygotsky, Piajet, Wallon e Paulo Freire, ainda há outra alternativa: leia este livro num domingo a tarde, depois do almoço familiar e da correção das provas de seus alunos – disciplina por disciplina, uma a uma – é claro, faça isso naquela rede armada no fundo do quintal debaixo da mangueira, se o sono vier antes da metade da leitura, ‘sem problemas’, entregue-se a ele, com os resquícios pedagógicos que acabou de absorver, e seja o mais novo componente do ‘dream team’: patrocinado pela UNESCO e liderado pelo Senhor Edgar Morin.


Brasília, maio de 2009.

Wagner Silva

terça-feira, 5 de maio de 2009

A 'I-Mutabilidade' Significativa da Palavra Trabalho.


No dia-a-dia do mundo moderno não é difícil se deparar com os dilemas sociais à respeito do trabalho: "devido à crise econômica mundial, milhares de pessoas ficaram sem trabalho no primeiro trimestre deste ano"; "aumenta, a cada mês, o número de pessoas que são obrigadas a entrar para o mercado de trabalho informal, e o principal vilão é o desemprego"; descoberta, no estado do Pará, carvoaria que usava de trabalho escravo e infantil a anos"...
A palavra 'trabalho' adquiriu , ao longo dos séculos, contornos e significados diferentes. Em sociedades com grande contingente de escravos, como no Egito antigo, as atividades braçais, que caracterizavam , de fato, o trabalho, eram consideradas, pela alto escalão da sociedade, como sendo inferiores. Esta idéia semântica do trabalho permaneceu vigente durante os grandes impérios e, também, na idade média, embora um pouco menos neste período histórico.
Durante o processo de ascensão burguesa, muda-se os aspectos significativos sobre quase todos os modelos de labuta, surgindo aí a "constante" de que o trabalho, apenas e somente este, dignificaria o homem. A palavra é, em si, totalmente desvirtuada de seu sentido inicial, em nome dos anseios de uma sociedade em vias de alcançar a hegemonia social.
E nos dias de hoje, como está a concepção de trabalho em nossa sociedade? claro que é ainda o único meio de dignificação do homem, no entanto em muitos casos contribui para a sua total destruição enquanto ser livre e autônomo, uma vez que inserido; por um motivo ou outro, de maneira 'obrigada', principalmente no subemprego, abre mão do domínio de sua mente e do próprio corpo em nome da sobrevivência.

(...) A palavra trabalho deriva etimologicamente do vocábulo latino
tripaliare e do substantivo tripalium, aparelho de tortura formado por três paus, ao qual eram atados os condenados, e também servia para manter presos os amimais difíceis de ferrar (...) *

Na atualidade, até que ponto o trabalho aparece para as pessoas com o mesmo significado que tinha no império romano ou o igual sentido possuido durante a ocupação das treze colônias americanas?
A nossa verdade inconveniente é que enquanto a família das crianças - os neo-escravos - nas carvoarias , estão presas ao
tripalium, tentando pagar suas dívidas com o dono do empreendimento - feitas como a compra de feijão e arroz no mercado do patrão - este está trabalhando duro para ajudar no desenvolvimento do país, se dignificando cada dia mais e projetando abrir duas novas empresas do mesmo ramo; e com as mesmas práticas: uma no estado de Mato Grosso e outra no Maranhão.


brasília, 01 de maio de 2009.

Wagner silva.


* Aranha, Maria Lúcia de arruda e Martins, Maria Helena Pires. Filosofando. terceira edição revista. São Paulo: Moderna, 2003. pg 37.