segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Senador e o Engraxate



No congresso nacional brasileiro uma sessão ordinária qualquer está no fim, pouco a pouco saem do plenário os excelentíssimos. É quinta-feira e o expediente semanal de um senador do interior do pais está cumprido , despede-se dos seus colegas de trabalho com as costumeiras cordialidades senhoriais; marca registrada dessas figuras tão gentís consigo mesmas, e parte para o estacionamento, onde seu motorista o espera no veículo oficial.
-leve-me ao shopping mais próximo, Sebastião! tenho que comprar um presentinho pra minha netinha que faz sete aninhos no fim de semana... depois seguiremos até o aeroporto.
-sim, senhor, estaremos lá em 10 minutinhos.
Ao chegar no estacionamento do shopping o senador pede ao motorista que o espere no carro, pois não demorará. Adentra o recinto e procura um loja de presentes. enquanto escolhe entre um de vários últimos lançamentos da boneca barbie, recebe um telefonema de um dos seus acessores, comunicando-lhe que o voo previsto irá atrasar em, no mínimo, duas horas.
O senador decide procurar uma lanchonete por ali pra fazer um lanche e esperar; senta-se à mesa e aguarda o atendente, que não demora muito em prestá-lo atenção e após pedir uma coca-cola light e paozinho francês amanteigado apanha um jornal que havia sido deixado por ali e o folheia: política, economia, crônicas, gastronomia e até astrologia, mas o que chama a sua atenção mesmo é a coluna de esportes: uma leitura tão desinteressada que lhe sobrou oportunidade para observar como a morena que passava por ali, acompanhada, era muito elegante: genuina brasilidade. Chega em sua mesa a coca cola e o paozinho que substituem pronta e urgentemente as letras fadonhas do senador. Comer: um ato universalmente sagrado; matar a fome pensando em quase nada; saborear a necessidade do apetite.
Pela primeira vez o senador observa um jovem que estava um pouquinho afastado dali: entre a lanchonete e corredor que dá acesso ao elevador: era o engraxate; postura serena e firme, sentado em seu esplendoroso ganha pão de cada dia. O garoto estava desocupado, portando um livro robusto e mergulhado em sua leitura - mais apetitosamente do que o lanche do senador - ignorava a tudo e a todos ao seu redor. O político termina o de lanchar e leva suas atenções ao prestativo leitor; de maneira discreta observa-o atentamente.
- o que será que este jovem lê com tanto afinco? - sentiu uma irresistível vontade de saber o tema de tal leitura e decidiu procurar o engraxate .
-boa tarde meu garoto! tudo bem?
-boa tarde, senhor, tudo bem sim!
o jovem observou o ilustríssimo senhor de terno e gravata impecáveis e o reconheceu; sem se lembrar de onde, como não vira necessidade em ajudá-lo, esperou pelo seu interlocutor...
- gostaria de limpar os sapatos, meu jovem!
- mas estão tão limpinhos, senhor!
-sim, mas gosto de vê-los brilhando um pouquinho mais...
-tudo bem, o senhor é quem manda, vamos ver o que posso fazer...
Panos e escovas vem e vão e o senador não contém a curiosidade em saber que leitura merecia a atenção do garoto minutos antes.
-posso olhar o livro que você lia quando cheguei?
-sim! sim! fique a vontade, o senhor conhece pensamento de rousseau?
-não, não, nunca lí nada a respeito ...
-este é um dos seus trabalhos mais importantes e embora tenha sido escrito no século dezoito trata de uma problemática bem presente no mundo moderno...
- "discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens"... certamente é bem atual... mas me responde uma coisa meu jovem, como um livro tão antigo pode atrair tanto a atenção de um garoto tão menino como você?
-ahh é verdade, não é muito comum hoje em dia mesmo; é que estou me preparando para o vestibular e esses temas me são muito importantes...
-ahh isso explica a sua empolgação com o tal de rosseau: o vestibular!
- e essa boneca, senhor?
- é para minha netinha que está fazendo sete aninhos.
-que bom. o seu sapato está pronto, senhor...
-sim, quanto é meu jovem ?
-nada , não usei material e quase não tive trabalho. da próxima vez o senhor paga, certo?!
o senador sorri, agradece e despede-se do jovem estudante dezejando-lhe boa sorte no vestibular, mas antes de sair teve de perguntar:
-que faculdade sonha em cursar garoto?
-ciência política, senhor...
-ahh sim , boa sorte meu jovem e até a próxima...
-até a próxima, senhor! obrigado.
o senador volta a lanchonete pra pagar o lanche e antes de ir ao o aeroporto tinha outro endereço certo a passar . Chegando no estacionamento apressou o motorista
-Sebastião! direto para a livraria mais próxima...
-sim, senador! mas não conheço nenhuma senador!
-certo, então vamos à universidade, certamente haverá alguém por lá que saberá onde encontrarei aquele livro... dê-me um pedaço de papel aí, Sebastião! preciso anotar isso antes que me esqueça ..." discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens"...
No caminho até à universidade o senador liga para sua chefe de gabinete e a pede que verifique na biblioteca do senado se consta em seu acervo tal obra. E foram em busca do livro que o garoto engraxate, estudante pré-vestibulando e futuro cientista político tanto adorava em sua leitura.


Brasília, 27 de abril de 2009.


Futuro Médico Frustrado


É incrivelmente lamentável a quantidade de assuntos fúteis e até maldosos que rolam no restaurante universitário - RU - : opiniões nada respeitosas expressadas a respeito da mãe de alguns professores, fuxicos sobre aquela morena 'gostosa' que está na fila de entrada, dúvidas relacionadas à 'cor-sabor' do suco oferecido no dia e de outros dias também... onde será a farra da quinta-feira? temos mais calouros ou mais calouras? negras ou loiras? ô povo que tem assunto meu deus! Conversar é muito bom: contribui bastante para a sociabilidade no meio acadêmico; aliás em quase todos os relacionamentos humanos, além de ajudar no fortalecimento dos vínculos afetivos. O grande problema é que nessa empolgação toda tem sempre alguém do lado que ouve essas conversas; e o sujeito não tem culpa de nada, está por lá almoçando como todo mundo e de repente escuta os comentários; e se for um cara 'cri-cri'? acredito que essa expressão tenha sido originada a partir do termo 'critico', não vem ao caso. Estava eu no RU um dia desses e me encontrei em meio a uma situação inusitada; uma cena das mais chatas e espero muito que não seja corriqueira, como tantas outras: naquelas mesinhas enfileiradas de lá fica-se muito próximo das pessoas. À minha direita sentava-se uma jovem de uns dezoito anos talvez e de muita elegância, estava com um ar de concentração e expressão muito séria. Em poucos minutos chegam dois rapazes do curso de medicina; percebia-se pela roupa que usavam: aqueles sapatos, calças e camisetas tão branquinhas que parecem ter acabado de sair da lavanderia; deviam ter uns vinte e poucos anos, tinham muito boa aparência e falavam bem a bessa: do tipo que ainda mantêm verbalmente a expressão 'estávamos'; é bonitinho! enfim; reclamavam de alguma coisa na comida que, segundo eles, cheirava mau e passaram uns cinco minutos divergindo entre o vinagrete ou a cenoura como sendo os culpados. A jovem ao meu lado parecia incomodada com alguma coisa, talvez com os futuros médicos; não era a única. Terminou de almoçar antes de mim e saiu rapidamente, como se fugisse de uma situação desagradável, deixando-nos em companhia de um silêncio um tanto quanto apetitoso pra mim, mas que tinha, naquele momento, uma razão de ser: um dos rapazes, depois de esperar que a jovem se distanciasse, comentou em voz baixa com o colega:
- esta moça que acabou de sair daqui fez um exame urológico no hospital universitário semana passada...
o seu colega olhou de relance e ficou em silêncio; talvez por perceber algo que seu amigo não o tenha feito. Falou em voz baixa, mas o suficiente para um cara 'cri-cri' escutar. O juramento Hipocrático, embora tenha ,hoje em dia, mais de simbólico do que de eficaz, é realizado no final do curso de medicina, no entanto deveria ser feito, por eles, todos os dias, para que os futuros médicos não esquecessem dos verdadeiros fundamentos de sua arte. Nesse momento eu saia da mesa, mas eles continuaram; estarão por lá amanhã, depois ,e, com certeza, os comentários fúteis e maldosos também, infelizmente.


Brasília, 23 de abril de 2009.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Comunicação Criativa


O mundo está cheio de pessoas que têm tanto a nos ensinar sobre suas experiências. E cada um de nós temos o que oferecer em idéias a muitas pessoas. Comunicação: revolução.